terça-feira, 30 de dezembro de 2008

quem quer mudar?


É indubitável que ao chegarmos a uma certa idade, nós começamos a pensar no passado. Isso não acontece somente com os nossos pais ou avós, também acontece com a gente. Por exemplo, eu, com quase 25 anos, já tenho vários momentos em que me pego pensando no meu tempo de faculdade ou no tempo de colégio. As lembranças ficam guardadas e estão sempre disponíveis na nossa mente pra quando precisarmos delas. Ao pensar no passado, nas coisas que fizemos, é quase inevitável imaginarmos como seria se tivéssemos feito isso ou aquilo de uma forma diferente. Acabamos pensando que talvez não deveríamos ter feito aquilo e que deveríamos ter feito aquilo outro. A nossa tendência é querer ter a chance de voltar atrás e mudar algumas coisas. Claro que essa chance nunca virá.


Por outro lado, quando chega o fim de um ano, as pessoas começam a pensar ansiosamente sobre o ano que virá. Amanhã, bilhões de pessoas, literalmente, pensarão sobre 2009. A grande maioria fará promessas e a minoria conseguirá cumpri-las. Esse contraste entre o passado e o futuro é menor quando pensamos que em ambos os casos desejamos viver de uma maneira diferente do que no presente. O engraçado é que quase cem por cento das pessoas desejaria ter mudado algo no passado. Não é possível viver de uma forma diferente no passado, mas as expectativas quanto ao futuro são bem grandes. Mas, quando o futuro se torna em presente e elas têm a oportunidade de mudar algo realmente, elas não fazem nada e o presente se torna passado, acumulando assim mais uma história que gostaríamos de ter vivido de maneira diferente.


Por que é tão difícil mudar e começar a fazer as coisas como nós gostaríamos de fazer? Sei que existem aquelas pessoas que pensam em coisas bem simples como assistir menos televisão e ler mais livros. Mas, mesmos esses hábitos, aparentemente insignificantes, se tornam praticamente imutáveis quando tentamos mudá-los. Isso acontece porque os hábitos se tornam um comportamento e um comportamento acaba se tornando um traço da personalidade. Aquilo que a gente acha ser só um hábito, na verdade já se tornou parte de você mesmo e por isso é tão difícil mudá-lo.


Aí está o perigo. A grande maioria das pessoas usa como desculpa para fazer algo moralmente incorreto ou socialmente recriminável, que isso acontece só de vez em quando ou então, que será só uma vez ou ainda, que será a última vez. Todos já usamos essa desculpa. Parece que nós conseguimos nos enganar com maior facilidade do que qualquer outra pessoa. Mas, aos nos enganarmos, nos esquecemos que esse hábito raro, irá se tornar mais e mais comum até chegar o ponto em que você não mais conseguirá se livrar dele.


Todos iremos errar e sempre olharemos para trás pensando que poderíamos ter feito melhor. E sempre olharemos para o futuro com o desejo de acertar mais do que no passado. No fundo, o ser humano parece ter algo indicando que deveríamos ser melhores do que somos. Porém, quão poucos são aqueles que, tendo consciência disso, viverão o presente para melhorar quem são. O homem não consegue mudar quem é e melhorar a sua vida, mas ao mesmo tempo, tem o desejo de fazer isso. A única resposta que existe pra essa luta se encontra na Bíblia em Gênesis capítulo 3. E, a única solução que existe pra isso se encontra em Lucas capítulo 2. Se você tem real interesse em viver de uma maneira melhor, se você quer viver o presente sem ter medo de que ele se torne um passado que você gostaria de mudar, então procure a resposta e a solução que só a Bíblia pode dar.


Feliz ano novo!

domingo, 30 de novembro de 2008

vida sóbria


Ao ler a primeira epístola de Pedro me surpreendi com o uso contínuo de uma palavra. Pedro, em diversos momentos, fala sobre ser sóbrio. Nunca tinha reparado no uso desta palavra na Bíblia, mas ao fazer uma pesquisa rápida, vi que existem diversas ocorrências. São dezessete no total. Todas são feitas por Paulo e por Pedro. Existem dois significados, um diz respeito à sobriedade física e outra diz respeito à sobriedade mental. Seis têm um sentido físico e onze têm um sentido mais mental.

A sobriedade é uma característica do ser humano. Digo isto, porque a sobriedade tem a ver com a razão e o modo como a razão tem domínio sobre os sentidos; de tal forma que os sentidos permanecem ávidos e afiados. Quando alguém está embriagado, o que acontece é que a razão é diminuída e os sentidos se tornam mais lerdos, é como uma sonolência. O que eu percebo então, é que a sobriedade é algo que caracteriza o ser humano como ser humano, enquanto que a embriagues é desumanizadora. Veja que para tornar a idéia mais clara, foi necessário usar o exemplo da sobriedade física – que inevitavelmente afeta a sobriedade mental. Mas, creio que a sobriedade mental é muito mais complexa e significativa.

Quando Paulo ou Pedro diz que os cristãos são chamados para serem sóbrios, vejo nisto uma grande verdade. Só para nos localizarmos, as duas passagens que servem como exemplos são Tito 2:12 e 1 Pedro 4:7. Na primeira passagem, Paulo agrupa sobriedade com justiça e piedade (no sentido religioso). Essa é a significância da sobriedade; Paulo está colocando ela em equidade com a justiça e a piedade.

Ao que me refiro quando falo sobre sobriedade? Como disse logo acima, a sobriedade é uma característica do ser humano, pois diz respeito à razão. O homem é o único ser neste mundo dotado da razão e a partir do momento em que algo tira a sobriedade do homem, o homem se coloca em uma posição inferior ao que ele é. A sobriedade também tem a ver com uma mente saudável. A mente do homem deve ser exercitada e estimulada de tal forma que fique saudável ou sã. Quando o homem age com bom senso, aí ele está exercendo a sua sobriedade.

Se isso é verdadeiro para o homem natural, quanto mais para o cristão. Por isso os apóstolos os chamam para viver com sobriedade, porque não há ninguém neste mundo mais apto a viver sóbrio do que o cristão. O homem foi criado por Deus à Sua própria imagem. Adão foi criado sóbrio, com uma mente sã. O pecado desumanizou o homem, ou seja, fez com que o homem virasse algo inferior ao que ele era. A salvação que Deus concede ao homem envolve a regeneração; o que dá de volta ao homem características humanas que ele havia perdido por causa do pecado. Deus nos deu a sobriedade de volta e devemos praticá-la, assim como devemos praticar a justiça recebida e a piedade recebida. Imagine que a sobriedade mental, que é muito mais séria, é algo que o cristão tem o dever de exercitar, quanto mais ainda a sobriedade física; não deveria nem ser considerada a possibilidade de um cristão se embriagar com algum tipo de substância. Ser sóbrio, para o cristão, é utilizar a razão e o senso para viver consciente da vida de Deus em nós. É viver o propósito para o qual Ele nos criou. É viver como seres humanos mais humanos, ou seja, mais à semelhança de Deus.

domingo, 9 de novembro de 2008

cuidado com a podridão


Há muito tempo tenho pensado sobre a perecibilidade das coisas. Como cristão e tendo minha vida delineada pela Palavra de Deus, devo olhar para a vida com uma perspectiva coerente com aquilo que Deus diz. Ele nos fala que existem coisas eternas e coisas passageiras e que nós, humanos, somos feitos de matéria perecível e de substância eterna. Por causa dessa duplicidade, o homem deve lidar com o eterno e o passageiro em seu caminhar. Os cristãos, segundo a Bíblia, devem viver de acordo com a eternidade, pois eles têm a vida eterna e sua cidadania celestial é eterna. Não há nada de errado com o perecível, porém o lugar dele é em submissão ao eterno e não de supremacia.


Não é nem preciso falar sobre a importância das coisas materiais, na verdade, é necessário falar sobre a sua falta de importância. A tendência é darmos mais valor ao material e ao temporário, pois estes agradam ao corpo, ou às sensações. O prazer proporcionado pelo corpo é imediato e, por isso, nós temos a tendência de priorizar esse tipo de prazer. Nós, cristãos, também sentimos prazer nas coisas espirituais e eternas, porém o prazer é diferente. Ele atinge as sensações, porém não as corporais. Seu resultado, na maioria das vezes, é mais sutil, dando assim a impressão de menos prazer. Mas, ao contrário do prazer corporal, que passa rápido e não satisfaz a alma, o prazer espiritual é de longa duração e satisfaz o espírito.


É um pouco difícil caracterizar a perecibilidade da matéria. Claro que me refiro a uma perspectiva diferente da química e biológica. Todos sabem que o prazer do corpo é algo passageiro. Todos sabem que a fome é saciada por um bocado de comida. A sensação de satisfação permanece por um pouco e logo depois a fome vem de novo. Levando isso para outro nível. Todos sabem que o dinheiro, a fama etc. não são prazeres duráveis. A alegria permanece desde que as coisas permaneçam. Mas, pelos milhares de exemplos que conhecemos, sabemos que tudo, tudo mesmo vai passar. Se não passar nesta vida, pelo menos vai passar quando morrermos. Ninguém leva os seus tesouros materias no caixão (até os dentes de ouro ficarão por aqui). Mesmo assim, como é difícil ensinar alguém a deixar de viver em função dessas coisas não é? Ainda mais difícil é ensinar a nós mesmos a não viver assim.


Nessa semana eu li algo muito interessante que me levou a pensar da seguinte maneira. Todos desejam a glória, a fama, o dinheiro e o sucesso de muitas personalidades da História. Por exemplo, como é instigante ler sobre como os reis do Egito eram considerados deuses e como eles estavam cheios de honra. Também é muito invejável lermos sobre o poder e sucesso militar de imperadores da antiguidade. Pessoas tais como Alexandre, o Grande e os Césares romanos. Todos gostariam de ter a fama deles, as riquezas deles, seu poder, suas mulheres etc. Mas vejam bem, ninguém gostaria de ser Faraó no momento em que foi acometido com 10 pragas e morreu no meio do Mar Vermelho como um nada, um grão de areia na imensidão das águas. Ninguém gostaria de ser Alexandre, o Grande quando acometido de diversas doenças e morrendo antes de completar os 33 anos de idade, sem ter alcançado o que queria. Ainda menos, querem ser como Nero que foi perseguido e acabou se matando ou como Cláudio, assassinado por envenenamento. Nenhum deles conseguiu sustentar a sua fama até o fim. Tudo acabou, pois é isso que acontece com o que é perecível. A sua natureza é acabar.


A matéria tem um início, um ápice e um fim. Todos querem o ápice e quando pensam nas coisas materiais, só pensam no ápice. Se esquecem que pra conseguir tudo isso será necessário dar tudo de si. Terão que viver em função do alvo almejado. Mas, pior ainda, se esquecem que depois do ápice haverá um declínio que pode ser tão repentino a ponto de tudo sumir de um dia para o outro. Ainda pior do que isso, se esquecem que quando a matéria não desaparece, ela apodrece e cheira mal. No fim, o que todos têm desejado hoje, é o lixo de amanhã. O que eles tanto querem hoje, é o esgoto de amanhã. O que todos querem para si hoje, é a morte de amanhã.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

deuses inimigos

Talvez um dos livros históricos mais intrigantes da Bíblia, é Juízes. Existem histórias ali que mal podemos acreditar que tenham acontecido no meio do povo declarado ser o povo de Deus. Na minha leitura deste livro me deparei com um acontecimento que não é peculiar a este livro. Porém, a forma como a história é descrita me chamou atenção.

Refiro-me a Juízes 10:6-13. Há ali a descrição da idolatria do povo de Israel, até aqui nada de novo, mas é descrito ali o nome de dois deuses (Baal e Astarote) e o fato de Israel estar adorando os deuses da Síria, Sidom, Moabe, dos filhos de Amom e dos filisteus. Estas nações são mencionadas muitas vezes desde Êxodo até dia o fim do Velho Testamento (algumas mais do que outras). Quem são esses países? Esses são os ocupantes anteriores da terra que Israel conquistou. Sendo assim, são os inimigos de Israel. Pra mim, foi incrível ver que o povo de Deus desprezou o culto a Deus - e com isso, desprezou o próprio Deus – para servir aos deuses de seus inimigos.

O que acontece depois disso? Esses outros povos começam a ameaçar os israelitas e a lutarem contra eles. Essa é a atitude natural dos inimigos. Nesse momento Israel percebe o seu próprio infortúnio. Eles se vêm adorando aos deuses dos seus inimigos e estes, vêm contra eles. Pra quem Israel pedirá ajuda? Para os deuses que estão cultuando? Mas, estes são os deuses dos seus inimigos. Não há nada mais estúpido do que isso. É nesse momento que eles percebem a ignorância daquilo que estavam fazendo e buscam o socorro de Deus.

Esta é uma história que parece muito absurda pra nós, mas sejamos realistas e vamos tentar achar algo parecido no nosso tempo. Quantos são aqueles que conhecendo a Deus preferem cultuar os deuses inimigos? São muitos os que ouvem e falam sobre Deus, mas ao invés de confiarem nEle (ver nEle motivo de confiança, que é um dos frutos de se cultuar a Deus), acabam confiando nos deuses inimigos. No Novo Testamento existem três inimigos a serem vencidos: o diabo, o mundo e a carne (pecado). Bom, o diabo está fora de questão, mas e os outros dois? Com que freqüência nós desprezamos a Deus e nos entregamos aos deuses inimigos?

Não é difícil encontrar cristãos que têm o dinheiro, a fama, o trabalho, o sucesso profissional, a pessoa amada, entre outras coisas, como deuses. Todas essas coisas que têm a ver com o mundo e com a carne se transformam em deuses e nós rendemos culto a eles. A lição que aprendemos do Velho Testamento é que o povo, ao desprezar a Deus e se entregar aos deuses inimigos, acabou sendo angustiado pelos próprios inimigos, pois a natureza do inimigo é lutar contra nós. Não vamos achar que será diferente conosco. O mundo e a carne, nossos inimigos, lutam contra nós, mas nós, ao invés de lutarmos contra eles, os adoramos como deuses. O resultado é óbvio, angústia e sofrimento. Aqueles que têm o dinheiro como deus, sofrerão pelo dinheiro, os que têm o sucesso como deus, sofrerão pelo sucesso e assim por diante Só não sofreremos quando tivermos como nosso deus, o verdadeiro Deus. Aquele que não é nosso inimigo, mas que no leva a caminhar num caminho de paz. Enquanto o mundo, a carne e o diabo batalham contra nós, Deus batalha por nós.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

com o coração na língua por Sinclair Ferguson


Esse é o segundo post de autoria de outrem. Sinclair Ferguson é um ministro fiel. Escocês de nacimento, ele tem se dedicado ao ministério da Palavra por meio da pregação, autoria de livros e edição de livros. Atualmente ele ministra numa Igreja Presbiteriana na Carolina do Sul, Estados Unidos. Foi ali, num conferência organizada por John Piper, que ele disse essas palavras:

Uma das coisas que a Bíblia nos ensina é que nós somos uma unidade. Por isso, cada aspecto do nosso ser, me parece, transparece quem nós realmente somos naquilo que a Bíblia diz ser o nosso coração. É isto que claramente permanece como direção central que impulsiona a identidade do nosso ser. Eu creio que porque o modo de comunicação que nós usamos mais é o falar, este é o primeiro e mais óbvio lugar onde nós iremos revelar nosso coração. Eu acho que nós o revelamos de outras formas, mas pode ser que estejam disposicionalmente escondidos. Na verdade, em tudo o que fazemos ou toda reação que temos, é uma expressão de nós mesmos. Eu realmente acho que um princípio norteador daquilo que eu estou fazendo no ministério do Evangelho e na exposição das Escrituras, é enfatizar que tudo o que eu faço não é uma aberração, mas uma revelação de quem eu realmente sou.

As Escrituras usam uma linguagem bem forte sobre como a língua é uma porta aberta. Na verdade, eu usei uma ou duas vezes, recentemente, que a imagem que eu tenho da língua na minha mente é aquela dos filmes antigos que eu costumava ver. Na era pré-moderna, se eles queriam expressar a disseminação de alguma notícia incrível, eles mostrariam um bando de repórteres correndo para os telefones e os pegando para ligar para os jornais. Então você veria os rolos de jornais sendo impressos. Este era o jeito, eu acho, na tecnologia pré-moderna, de tentar expressar que a notícia se espalhava pra todo lugar. Eu comecei a pensar, pelo menos isso me ajuda, que a maneira que nós usamos a nossa língua como aquele grupo de repórteres correndo para o mundo para dizer o que está acontecendo dentro do coração.

Então, no caso das palavras duras de nosso Senhor aos fariseus – o que eu penso trazer questões derradeiras sobre a, assim chamada, nova visão dos fariseus – Ele reservou sua linguagem mais confrontante para eles. O que ele realmente estava dizendo o tempo todo era que o veneno estava em seus lábios. E, isto quer dizer que você não pode continuar usando sua boca sem que o veneno saia. Aí, você se torna tão acostumado com o sabor do veneno que você nem percebe que ele está ali. Existem várias manifestações óbvias disso no modo como as pessoas usam o nome de Deus em vão. Sem pensar, sobre as palavras cruéis que usam, elas se tornam quase como pontuações em seus vocabulários. Eles se tornam tão acostumados com o veneno que eles nem o sentem mais. De novo, isso volta àquilo que eu acho ser um princípio básico de todos em direção à santificação. Caminhar para santificação envolve o Senhor nos mostrando como é aquele processo demorado, a demora da herança do veneno do pecado, que uma vez reinou. O vínculo ainda está lá, mesmo que o pecado não reine mais; e, a vida de santificação está ali, está vindo a ser, e virá na experiência da revelação do meu coração e isso sairá pelos meus lábios. A única forma de ter uma língua santa, é ter um coração limpo.

nossa posição e condição

Uma das maiores lutas travadas pelos cristãos diz respeito ao seu andar em santidade. Esse foi o assunto tratado dois posts atrás, onde escrevi sobre a luta pela santidade. Temos um novo coração, mas ainda há em nós aspectos da velha natureza e, assim, está armado o campo de batalha entre esses dois. Nesse momento, porém, quero tratar de algo que está acima dessa batalha. Claro que haverão perdas e ganhos, mas o que faremos quando perdemos?
Nas perdas, será que temos de desconfiar da nossa salvação? Ficaremos desesperados e nos entregaremos ao que é velho? De forma alguma!

É do entendimento geral, pelo menos deveria, que Israel é como um protótipo da Igreja (mesmo que parte de Israel realmente faça parte da Igreja). Quase tudo, se não tudo, do que é dito sobre Israel pode ser aplicado à Igreja. Em Miquéias 7:8 lemos o seguinte: ainda que eu tenha caído, levantar-me-ei; se morar nas trevas, o Senhor será a minha luz. É totalmente desnecessário dizer que Israel caiu, caiu e caiu. Miquéias fala aqui sobre uma dessas quedas.

O que ele diz é que o povo de Deus pode até cair, mas ele se levantará. Ele se levantará, não porque ele é forte e poderoso, mas porque Deus é forte e poderoso. O que é dito é que o justo pode até manchar a sua condição, mas ele jamais cairá de sua posição. Por que é assim? Porque a condição do crente, se ele está crescendo e amadurecendo na fé, é algo que pressupõe esforço de sua parte – ainda que receba muita ajuda divina. Já a sua posição de alguém que é salvo, não depende de seus esforços, mas do esforço do próprio Deus. Por ser assim, a posição do filho de Deus não muda por conta de seus tombos, mas a sua condição muda. Uma não muda, por depender de Deus exclusivamente e a outra muda, por depender, não exclusivamente, do próprio homem.

Fica clara, então, a importância do entendimento da salvação unicamente pela Graça. Há a esperança de salvação, exatamente porque é algo operado exclusivamente por Deus e, o mesmo pode ser dito sobre a perseverança dos santos. Deus, não nós, é a luz no meio das trevas. Na verdade, nós fazemos parte das trevas. O fato de podermos nos levantar e caminhar, é porque adiante de nós está Deus, como uma luz que ilumina o nosso caminho para que não mais tropecemos. Nossa confiança deve estar na nossa posição (Deus nos colocou no caminho) e não na nossa condição (estamos em pé ou caímos).

terça-feira, 21 de outubro de 2008

a intolerância da tolerância por D.A.Carson

Nunca postei textos de outras pessoas aqui, mas vou abrir algumas exceções nesses próximos posts. Vou começar por este texto que eu transcrevi e traduzi de um sermão de D.A.Carson que está disponível aqui. É um texto totalmente atual e cada linha é rica em sabedoria. Aproveitem!

É importante entender que a noção de tolerância neste sentido tem uma certa herança intelectual que tem sido mudada pelo pós-modernismo. No paradigma modernista, a tolerância parece com isso: Eu posso discordar de você, mas eu insisto no seu direito de articular sua opinião, não importa quão estúpida e ignorante eu penso que ela seja. Em outras palavras, isto significa que há tolerância em favor do indivíduo para falar coisas com as quais eu discordo. Tolerância vai de encontro com indivíduos. Mas, há um ferrenho debate no nível do conteúdo e da substância. Então, eu posso discordar profundamente com a interpretação histórica marxistas, mas eu sou uma pessoa tolerante de acordo com o regime moderno. Eu insisto no direito da historiografia marxista de articular suas opiniões, mas ao mesmo tempo, de acordo com a visão ocidental de tolerância e no campo moderno, eu insisto no direito do capitalista de articular suas visões e do teísta articular suas visões ou o que for, não importa o quão certo ou errado eu acho que eles estejam. Então, a não ser que seja algo profundamente conturbante para o bem estar público; como por exemplo, alguém que chega para advogar veementemente a pedofilia.

Então a noção de tolerância de permite a defender quase todos ensinando quase tudo.
Porque de acordo com o paradigma modernista, a suposição é que, na área da disputa das idéias, a verdade virá à tona. Existe uma verdade para ser procurada. Existe uma verdade para ser buscada. A verdade é, em última análise, desejável e apreensível. Em outras palavras, esta visão de tolerância está presa a uma certa visão da verdade, uma certa epistemologia. Mas, uma vez que você muda a epistemologia e perde a visão da verdade, a própria tolerância é redefinida.

Agora, tolerância significa que você não pode dizer que ninguém está errado. Está é a coisa errada a dizer. Mas agora perceba, nesta visão de tolerância, você não é tolerante com os indivíduos, você é tolerante com as posições. Agora, tolerância é dirigida a todas as visões que são articuladas, porque você não está na posição de dizer que nenhuma visão é errada. A única coisa que não é tolerada é a visão de que esta visão de tolerância é errada. É isso que você tem, a intolerância da tolerância. Pior, se alguém chega e diz que está visão de tolerância é errada – de acordo com esta nova visão de tolerância – esta pessoa não é tolerante e por isso, essa pessoa não pode ser tolerada. Esta pessoa é uma intolerante.

Porque não há entendimento de tolerância dirigida aos indivíduos, mas somente às idéias – com exceção da idéia que diz que essa visão de tolerância é errada. Por isso, o campus universitário pode se tornar um lugar muito amedrontador para qualquer um que diz talvez haver um certo e um errado absolutos no fim das contas ou uma verdade absoluta.
Eu argumentaria que esta visão de tolerância é, de fato, logicamente incoerente. Eu não digo simplesmente que é inconsistente, é inconsistente, pois prova ser intolerante. Mas eu não me refiro a isso, eu digo ser algo pior. Eu creio ser incoerente, porque a própria noção de tolerância, de acordo com qualquer regime, pressupõe que você deve discordar de alguém ou algo, antes que você possa tolerá-lo. Você vê, seu eu digo, no meu campus universitário, que eu tolero alguém que promove o islã ou o marxismo ou qualquer coisa, eu tenho que discordar primeiro, antes de usar a palavra tolerar. Se eu digo, que você não está nem mais certo e nem mais errado do que eu e eu concordo com você, eu te tolero. É incoerente, nem faz sentido.

Para ser capaz de tolerar alguma coisa você deve discordar com a mesma em primeiro lugar. Mas, se de fato você não está numa posição de dizer que nenhuma posição está errada, como você pode falar em tolerar algo? Por isso eu argumento que esta nova definição de tolerância não é somente inconsistente, é incoerente e prova, de fato, ser menos tolerante do que o tipo de tolerância que existia no modernismo. Porque no ponto exato onde discorda mais com a posição intolerante, ela acaba eliminando todos os oponentes como intolerantes e ignorantes e, por isso, se torna, de fato, totalitária.