segunda-feira, 29 de setembro de 2008

casamento, sexo, ajuntamento etc.

Hoje, mais do que nunca, a Igreja tem sido influenciada pelo modo de viver e de pensar do mundo e isso tem afetado muitas crenças básicas do cristianismo. Houve, no começo do século 19 um movimento teológico chamado de liberal (liberal porque não cria que a Bíblia era a palavra de Deus, ou seja, a verdade e dava liberdade de interpretação sem mais estar presos ao princípio de verdade objetiva) que abriu as portas para que isso acontecesse. Por ser um movimento teológico, os primeiros pontos atacados eram de cunho teológico, mas com o passar do tempo, o liberalismo foi influenciando outros aspectos do cristianismo, aspectos do viver diário cristão. Hoje em dia, existe discussão dentro da Igreja sobre questões que os cristãos de séculos passados jamais imaginariam que seriam questionados. Toda a discussão sobre o homossexualismo, aborto, uso de drogas e outras questões, tem sido muito influenciada pela forma de pensar do mundo. Quero chamar a atenção para o que venha a ser a verdade bíblica sobre um assunto muito discutido hoje em dia, que é o casamento.

Diferentemente do que os cristãos sempre pensaram, hoje em dia é bastante aceitável que casais de namorados (vale lembrar que essa coisa de namoro é coisa bem recente) façam sexo antes do casamento. Muitos são os argumentos para que isso aconteça; alguns são totalmente inadequados e outros possuem algum peso para a discussão. Dos piores argumentos, creio que aquele que diz que o casal deve se “experimentar” antes, pois assim vão saber se há uma boa “química” entre eles, é o pior. Dos melhores, talvez o melhor seja aquele que diz que sexo é casamento, pois Paulo diz que aquele que se une com uma prostituta é uma só carne com ela (1 Cor. 6:16); e se é assim, todas as outras coisas (celebração religiosa, exigências governamentais etc.) são invenções das culturas e dispensáveis para que Deus reconheça um casamento.

Escrevo sobre este assunto por dois motivos. Em primeiro lugar porque eu fui enredado e cri que sexo era casamento, de acordo com a explicação dada do texto de 1 Coríntios. Felizmente não cheguei a pecar por causa disso, mas fui enganado. E, em segundo lugar, porque hoje, casado há dois anos, posso ver mais claramente o grande erro que muitos jovens têm acreditado e com isso, têm vivido uma vida de irresponsabilidade e pecado. Será que Paulo estava errado em dizer o que disse? Será que a única exigência para que haja um casamento é o sexo? Será que todo o resto não tem nenhum valor diante de Deus? É com essas questões que lidaremos agora.

Creio que a resposta mais importante nesta discussão é saber o que Paulo quis dizer quando escreveu que o homem que se deita com a prostituta se torna uma só carne com ela. Ali, Paulo está lidando com a licenciosidade dos crentes de Corinto. Muitos estavam vivendo em meio à prostituição achando que aquilo não era pecado. Sendo assim, Paulo esclarece a profundidade que tem a relação sexual, dizendo que o sexo torna as duas pessoas como um só corpo e assim, o cristão estava, através do sexo, fazendo o corpo de Cristo se ajuntar com uma prostituta. Hoje em dia precisamos muito deste ensino, pois muitas pessoas não conseguem ver que o sexo é ato de profunda intimidade e não um ato sem importância. Paulo estava lidando com este problema, sua intenção não era dizer o que o casamento era. Digo isso porque o casamento não é somente se tornar um só carne através do sexo, pois muitos homens são uma só carne com prostitutas, mas ainda assim não estão casados com elas.

Neste mesmo trecho, Paulo fala sobre o cristão como fazendo parte do corpo de Cristo e, diferente das crenças de algumas religiões antigas, onde o sexo era parte integrante do culto para que houvesse a relação com o deus ou deusa, no cristianismo nossa união com Cristo se deu por meio de Seu sangue e é mantida pela nossa comunhão e pelo nosso viver com Ele. Sexo é parte integrante do casamento, mas está longe de ser a única parte. O viver juntos é de grande importância também, tanto é que, no estabelecimento dos princípios do casamento por Deus, é dito que o homem deixará a sua casa e se unirá à sua mulher. Esta união de comunhão é, juntamente com o sexo, um pilar do casamento. Então, com sexo, mas sem união, não há casamento.

E o que podemos dizer daquilo que hoje é feito como cerimonial de casamento (a festa, as assinaturas, os votos, as testemunhas etc.)? É necessário admitir duas cosias aqui. Muitas formas de cerimônia são realmente invenções culturais, mas fique claro que não é a cerimônia em si, mas a forma da cerimônia. E, que muitos cristãos tradicionais enfatizaram e enfatizam pontos não tão importantes do casamento, deixando os jovens receosos sobre o que é realmente exigido por Deus.

É possível haver casamento sem vestido de noiva, bolo, festa para 100 pessoas etc.? Com certeza, mas é preciso ficar claro que algumas coisas que parecem ser desnecessárias, são, na verdade, as mais importantes. Os votos e as testemunhas são essenciais. Em toda a Bíblia, existem indícios de que os votos são importantes em uma cerimônia religiosa (Deut. 12:11); assim, o que é dito, é dito diante de Deus e com testemunhas. Sendo assim, certa cerimônia é exigida. Como ela será feita, não interessa, mas deve ser feita como forma de uma apresentação diante de Deus e isso não pode ser feito somente entre o casal, mas deve envolver a família e testemunhas. Poderíamos até comparar um pouco da cerimônia do batismo que é feita com votos diante de Deus e de testemunhas. O casamento civil também é necessário, pois o casamento é um ato civil com implicações civis e os cristãos devem andar em conformidade com as leis, desde que elas não andem em desacordo com as próprias leis de Deus.

Casamento é um lindo presente que Deus deu aos homens e mulheres, mas infelizmente essa beleza está se perdendo, seja pela freqüente imoralidade e irresponsabilidade, ou por ficar opaco diante de tantos enfeites exorbitantes como num casamento de princesa. Mas, nós cristãos, somos chamados para sermos exemplos e mostrarmos a essência daquilo que Deus estabeleceu como um símbolo da própria união de Cristo com a Sua Igreja (Efésios 5:32) e não para nos adequarmos aos pensamento do mundo.

domingo, 14 de setembro de 2008

Igreja templo ou Igreja tabernáculo?

Dois foram os lugares da habitação de Deus – quero lembrar que aqui não vou me deter na explicação da adoração a Deus em espírito e em verdade, sabemos muito bem que Deus não habita, ou não se limita, a um lugar ou a uma edificação - na história de Israel. Após terem saído do Egito, Deus deu ordens a Moisés para que preparasse o tabernáculo. Este local seria utilizado para realizar as ofertas, os holocaustos e a adoração a Deus. Após o estabelecimento do povo na terra prometida por Deus, Canãa, surgiu um novo desejo em Davi para se fazer uma construção monumental que viria ser a Casa de Deus. Davi não realizou seu desejo por que Deus o proibiu, e quem colocou em prática o projeto que Deus deu a Davi foi seu filho Salomão.

O tabernáculo era basicamente uma tenda com grandes proporções. Sua estrutura era de cordas, cortinas de pêlos de cabra, tábuas de madeira e cortinas de linho e estofo. Toda descrição se encontra no livro de Êxodo. A maior característica do tabernáculo era sua mobilidade, afinal o povo estava peregrinando pelo deserto em direção à terra prometida. O povo não podia ficar preso em um único lugar, o tabernáculo tinha que poder ser montado e desmontado de acordo com a necessidade de mudança de local.

Já o templo era uma edificação monumental. Obviamente que a grandeza do templo não pode ser comparada com edificações modernas, pelo menos não no que diz respeito ao seu tamanho. Ainda assim sua beleza de detalhes e riqueza de aparatos ainda podem ser muito admiradas. O fato de Davi ter desejado construir o templo pode ser explicado de duas formas. A primeira é porque Davi achou que Deus estava sendo menosprezado por “habitar” numa tenda e o segundo motivo é que o povo estava estabelecido na terra prometida já havia algum tempo, não havia mais a necessidade da mobilidade que o tabernáculo oferecia.

Os dois lugares ofereciam ao povo a oportunidade de adorar a Deus, mas cada um deles foi feito por ocasiões diferentes. O que gostaria de pensar neste momento é qual desses dois lugares expressa melhor a forma como a Igreja deve ser no nosso tempo. Será que a Igreja de Jesus Cristo está no momento adequado de ser comparado ao templo ou ao tabernáculo?

A resposta a essas perguntas deve ser direcionada pelo momento em que vivemos. Assim como o lugar da habitação de Deus na época dos israelitas se deu ao momento em que eles viviam.

Vamos primeiro pensar na ocasião do templo. O templo foi construído porque o povo já havia se estabelecido na terra prometida. Na Bíblia, existe uma conotação espiritual pata a terra prometida. É dito que um dia o povo de Deus, gentios e judeus, habitará na Nova Jerusalém. Pra mim essa é uma indicação de que o povo de Deus ainda não alcançou essa terra prometida, ainda não estamos estabelecidos no lugar onde Deus nos prometeu. Por isso, creio que a Igreja não pode ter uma estrutura tal como a do templo, não estamos vivendo o momento para isso. Estar preso a um determinado lugar é simplesmente perder de vista o propósito real da Igreja de Cristo na terra, é perder de vista, e não entender, qual é o momento que vivemos.
Sendo assim, eu acredito que a Igreja deve ser melhor comparada com o tabernáculo, pois este foi construído na época da peregrinação do povo. Como eu já disse em outro post, e não preciso me repetir, os cristãos são peregrinos. Como pode um peregrino se estabelecer em um lugar definitivamente? Isto exclui a própria natureza do peregrino, que é a sua mobilidade, se mudando de um lugar para o outro.

O que eu realmente quero dizer com isso? Obviamente não quero dizer que as igrejas devem sair das construções de alvenaria e fazer suas reuniões em grandes tendas (se bem que isso até seria interessante). Não, assim como a terra prometida tem uma conotação espiritual na Bíblia, é bom nós entendermos que a Igreja tem uma essência espiritual que vale muito mais do que sua estrutura física. Com isso, eu digo que a estrutura da Igreja, não a física, mas a sua essência, deve ser simples, leve, móvel e isso tudo irá possibilitar a mobilidade necessária para que a Igreja cumpra realmente o seu chamado de proclamar a mensagem de Deus, o evangelho de Cristo, até os confins do mundo.

Essa característica da essência irá refletir em ações e também na própria estrutura física das igrejas. Por exemplo, entre as prioridades dos gastos, não estará compra de novas cadeiras, compra de equipamentos de som, construção de cantinas, acarpetamento do piso entre outras coisas de mesma natureza. As prioridades estarão nos projetos sociais da igreja ou de outras organizações, no envio e sustento de missionários, investimento na preparação de membros que desejam servir com mais qualidade dentro da igreja etc.

Vivemos no deserto e não na terra prometida, o momento em que vivemos e, consequentemente, nossa essência irão definir a nossa estrutura. Infelizmente as igrejas têm errado nessas duas coisas, elas não entendem o momento em que vivemos e não entendem qual venha a ser a sua essência. Por isso, vemos tantos missionários sem sustento, tantos projetos sociais falidos, tanta pobreza e tanto descuido da igreja em tudo isso, mas ao mesmo tempo vemos tantos prédios e tantos púlpitos suntuosos, tantos equipamentos de som que dão inveja a estúdios profissionais, tanto ar condicionado, tanto carpete, tanta cadeira amofadada, tudo para fazer com que os membros se sintam o menos desconfortáveis possível. Assim, a Igreja se imobiliza, matando a sua própria natureza, sua própria essência de mobilidade.

Estejamos com lombos cingidos, sandálias nos pés e cajado na mão, comeremos às pressas; essa é a Páscoa do Senhor (Êxodo 12:11, essa é a Igreja do Cordeiro pascal).

domingo, 7 de setembro de 2008

pobre rei


Salmo 40:17 – Pobre e necessitado sou, mas o Senhor cuida de mim.
Quem vem a ser esse pobre e necessitado? Ninguém menos do que Davi, um rei altamente estimado por seu povo e pelos reis de outros povos. Cheio de riqueza e poder, mas ainda se vendo como um ser pobre e necessitado. Aqueles que imaginam que a riqueza, a popularidade, o sucesso profissional entre outras coisas semelhantes, são coisas que fazem o homem se sentir afortunado, se enganam. E, seu engano, é um engano que diz respeito à constituição do ser humano. O homem é mais do que o seu corpo e sua mente e, por isso, ele não se satisfaz com aquilo que toca somente o corpo e a mente. Sendo assim, homens poderosos e ricos como Davi, podem sim se ver como pobres e necessitados.

O fato da pessoa se sentir pobre e necessitada não a coloca numa situação de esquecimento por parte de Deus. A tradução da Bíblia em inglês substitui o verbo cuidar pelo verbo pensar. Deus pensa a respeito daquela pessoa, no caso Davi. A afirmação que Davi faz, antes de obter o livramento de suas tribulações, é uma confirmação de que mesmo tendo Deus como libertador e salvador, ainda haverão momentos de necessidade, momentos de tribulação, momentos de escassez etc. O que importa não é a prosperidade ou a falta dela, mas a certeza de que Deus cuida de mim ou que Deus pensa ao meu respeito. Essa é a verdade realmente importante, pois é por meio desta certeza que podemos ter esperança de que tudo está bem, pois Deus cuida de mim. A riqueza e a paz deste mundo não são certificados de que tudo irá bem. Em primeiro lugar porque, como eu já disse, o homem precisa de muito mais do que somente aquilo que afeta seu corpo e sua mente e, em segundo lugar, porque a riqueza deste mundo pode desaparecer com um sopro e a paz deste mundo, que poderia ser mais bem descrita como trégua, sempre tem a possibilidade de findar. As coisas deste mundo não têm condições de cuidar de mim, pois elas acabam, não podem em hipótese alguma dar esperança.

Outra questão importante é que Deus pensa a nosso respeito mesmo sendo nós pobres e necessitados. Quanto mais elevado o “status” de uma pessoa, menos ela se importa com aqueles que estão em situação inferior. A tendência é sempre nos nivelarmos em nossas relações e preocupações. Um presidente de multinacional vai se relacionar com pessoas que estejam no seu padrão social e suas preocupações não são referentes ao que é comum. Pela Graça, temos um Deus que, mesmo sendo o mais poderoso, rico, sábio (palavras são realmente insuficientes para descrevê-lO), ainda assim se preocupa com seres tão pequenos e, como se a nossa pequenez não fosse suficiente, sujos. Em outro Salmo é dito, quem é o homem para que Se importe com ele? E este mesmo teor de incompatibilidade entre Deus e o homem existe nesse verso do Salmo 40.

Não posso deixar de escrever sobre o fim do verso 16 que está em conexão com esta declaração aqui. É dito no verso 16 que aqueles que amam a salvação de Deus, devem sempre dizer: O Senhor seja magnificado! As pessoas que amam a salvação sabem que esta vem de Deus e não delas mesmas. Isso se relaciona com o versículo 17, pois aquele que ama a salvação de Deus e sabe que somente Ele merece receber toda honra e toda glória por isso, também sabe que é assim porque somos pobres e necessitados. A palavra necessitado, em outras versões é substituída por miserável. Ambas são perfeitas descrições do ser humano, pois ambas indicam o seu estado de total falência e perdição, o que o torna totalmente dependente da ajuda de Deus. Vale lembrar que Davi está se referindo as suas tribulações terrenas, como traição, guerra ou algum outro problema desse tipo. Se o homem, nestas questões terrenas, já são necessitados da ajuda de Deus, quanto mais ainda no que diz respeito às questões espirituais. Somos pobres e necessitados em diversos aspectos, mas acima de todos, somos necessitados em nossa condição espiritual.

Sabemos então que Deus, somente Ele, é o nosso libertador e por isso podemos fazer essa afirmação mesmo antes que venha a libertação. Também por isso é que temos o dever de dar somente a Deus toda honra e glória pela libertação e juntos dizer que o Senhor deve ser magnificado. O Senhor é o nosso libertador, não Te detenhas (Salmo 40:17).

domingo, 24 de agosto de 2008

os herdeiros

Muitas vezes ao ler o Novo Testamento eu acabo me surpreendendo com as interpretações de textos do Antigo Testamento feitas por Jesus e pelos apóstolos. Eles sempre trazem um entendimento muito inovador sobre os relatos históricos e proféticos. Textos como Joel 2 citado por Pedro no dia do Pentecostes, Gênesis 2 citado por Paulo em 1 Coríntios 11 e diversas citações feitas por Jesus nos evangelhos, como a história de Davi e seus companheiros comendo os pães da proposição (Mateus 12), são os tipos de citações que me chamam a atenção. Por causa disso, muitas vezes quando leio o Antigo Testamento e encontro uma história difícil de entender, eu imagino como seria a interpretação de Jesus ou dos apóstolos. Um desses textos é o relato de como Jacó enganou Isaque e recebeu dele as bênçãos que deveriam ser pronunciadas a Esaú (Gênesis 27).

Jacó já havia enganado Esaú e com isso tinha roubado o direito de primogenitura. Com isso, ele conseguiu algumas vantagens que não lhe eram por direito anteriormente, mas, aparentemente, a benção patriarcal era algo mais significante do que o direito legal da maior parte da herança. A dificuldade do texto se encontra no fato de Jacó ter enganado, mentido, roubado e tudo isso em parceria com sua mãe Rebeca. A questão é que tudo isso se encaixa na vontade de Deus, sabemos isso porque Paulo esclarece que Deus amou a Jacó e se aborreceu de Esaú antes de tudo isso, além de ter prometido para Rebeca que o mais novo serviria o mais velho. É uma tarefa difícil e que demanda muito tempo colocar pecados morais em conformidade com a vontade de Deus e por isso não o farei aqui. O que eu quero focar é a questão da herança e da benção que aparentemente deveriam pertencer a Esaú, mas acabaram sendo dadas a Jacó.

Ser da descendência de Abraão era algo muito importante para os israelistas, eles falam sobre isso com muito orgulho e menosprezavam os outros povos, ou mesmo os próprios descendentes de Abraão que haviam se misturado com outras nações (os samaritanos, por exemplo). Faziam isso porque tinham o entendimento de que ser da descendência de Abraão significava ser herdeiro da aliança que Deus havia feito com o seu ancestral. Esse entendimento estava correto, mas eles erraram na interpretação de quem eram os descendentes de Abraão.

Quanto a isso, Jesus e Paulo falaram de maneira esclarecedora. Os israelitas viam a descendência como sendo algo puramente físico, algo genealógico. Mas, Jesus disse aos fariseus que se eles fossem mesmo descendência de Abraão, eles fariam as mesmas obras de Abraão (João 8:39). Por sua vez, Paulo disse que nem todos os que são de Israel, são israelitas (Romanos 9:6). Como isso esclarece a história de Esaú e Jacó? Aquele que tinha direito “legal” a herança era Esaú, assim como os descendentes genealógicos de Abraão eram participantes da aliança, mas quem decide quem será o herdeiro não é homem. A aliança e a herança de Deus é dada àqueles a quem Ele quer dar. Deus não quis dar a herança a Esaú, Ele quis dar a Jacó. Deus não quis que todos os descendentes de Abraão (Ismael, os filhos que Quetura deu a Abraão – Gen. 25 – entre outros) fossem herdeiros da Aliança.

Jesus, por meio de seu ensinamento a respeito do Reino, inaugurou um novo entendimento do que viria a ser a descendência de Abraão. Ela não seria mais, na verdade nunca foi, algo físico, não mais uma questão de quem é circuncidado na carne, mas é uma questão de quem tem o coração circuncidado. Não é descendência de Abraão aquele que pode provar por meio de sua árvore genealógica, mas quem pode provar por meio de suas obras.

Assim como Deus escolheu Jacó no lugar de Esaú, Ele também foi escolhendo outros no desenvolver da história do povo de Israel, existem alguns exemplos, creio que o mais marcante é o de Rute, uma moabita, ou seja, não era descendente de Abraão, mas que foi escolhida por Deus para fazer parte da verdadeira descendência de Abraão.

Essas escolhas de Deus não acabaram no Antigo Testamento, muito pelo contrário, talvez o tempo inaugurado por Jesus, a nova dispensação, a era da Igreja, seja o tempo em que mais podemos ver isso. Deus escolheu muitos dentre os gentios para serem participantes da herança de Abraão. A era da Igreja, é a maior prova de que a herança não pertence àqueles que têm “direito legal”, mas sim àqueles que tendo sido escolhidos por Deus, têm o “direito real” a herança de Deus. Essa herança nada tem a ver com terra prometida, descendência abundante, mas remonta a promessa feita por Deus lá em Gênesis 3:15. É a promessa da salvação, a herança da vida eterna. Poderia falar muito sobre a herança, mas neste texto, meu propósito foi falar sobre os verdadeiros herdeiros, ou seja, aqueles que são escolhidos por Deus. Pois, para ser herdeiro não depende de quem seja seu pai, sua nação, as oportunidades que você teve, sua personalidade nem nada disso; para ser herdeiro é necessário ter sido escolhido por Deus para tal, pois não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece (Romanos 9:16).

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

...se alegra com a justiça...

1 Coríntios 13 é um capítulo muito bem conhecido não somente no meio cristão, mas também entre aqueles que conhecem algum pouco a respeito da Bíblia. Acredito que esse capítulo seja muito conhecido por todos por causa do seu tema que parece tão atrativo, um assunto que parece fazer parte da vida de muitos e que poucos parecem não ter a consciência de tê-lo experimentado, a saber, o amor.

Muito do que é conhecido desse capítulo diz respeito ao lado que tem uma aparência mais sentimental do amor, fazendo com que esse conceito romantizado do amor seja fortalecido nas mentes das pessoas. Claro que essa percepção sentimental do amor é visto mais claramente por todos porque o homem tem a tendência de ver somente aquilo que lhe agrada, deixando de lado o que lhe parece discrepante com o seu próprio conceito do assunto.

Quero abordar uma característica do amor que é normalmente negligenciada. É dito no versículo seis que o amor não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade. Essa característica do amor não tem a menor aparência sentimental e, por isso, é esquecida. Paulo coloca a questão de uma maneira negativa, mas poderíamos dizer, de maneira positiva, que o amor se alegra na justiça.

A descrição do amor, por ser um atributo de Deus, deve estar em conformidade com o Ser de Deus. Se por acaso Paulo dissesse que o amor não é zeloso, ele estaria mentindo, pois o zelo é uma característica de Deus, sendo assim, é uma característica do amor. Se Paulo diz que o amor não se alegra com a injustiça, isso é verdadeiro porque, realmente, Deus não se alegra com a injustiça. Os atributos de Deus, e do amor, não podem ser excludentes, mas devem caracterizar os outros. Por exemplo, Deus é amor e Deus é justiça, então, o amor de Deus é um amor justo e a justiça de Deus é uma justiça de amor. Um não pode excluir o outro.

Como os atributos de Deus caracterizam um ao outro, isso torna impossível a qualquer um conhecer somente um desses atributos, se eu quero conhecer o amor de Deus, é necessário que eu também conheça a Sua justiça, afinal o amor de Deus é um amor justo. Mas, normalmente as pessoas querem conhecer somente os atributos “agradáveis” de Deus, mas isso é impossível. Isso leva a uma falta de entendimento de quem Deus é, e o que se conhece não é mais o Deus verdadeiro, mas um deus distorcido. Se não o entendimento de Deus é distorcido, com certeza o viver e suas práticas também serão.

A justiça de Deus é tão imprescindível ao Ser de Deus quanto o Seu amor. O amor jamais se sobrepõe a justiça e é por isso que Deus enviou Seu Filho para morrer, porque o pecado tinha que receber a punição devida. O amor de Deus foi demonstrado em Sua justiça e vice-versa. Assim como Deus é, assim deve ser o amor, o amor que pratica a injustiça ou mesmo se alegra com ela já não é mais amor, é um sentimento vazio, como vazio é um deus distorcido.

domingo, 3 de agosto de 2008

O ídolo do homem

Por estarmos inseridos num contexto católico, nós, cristãos brasileiros, temos a tendência de termos uma visão muito exterior da idolatria. Esse erro acaba nos cegando para o lado da idolatria que, na verdade, é a raiz dessa exterioridade que é tão praticada no catolicismo e em outras religiões pagãs. A raiz de um pecado é sempre pior do que o pecado em si, não sendo diferente neste caso, a raiz da idolatria é muito pior do que a idolatria em si, principalmente porque a raiz é sempre mais difícil de ser combatida do que o próprio ato.

Em João 12:42 é dito que alguns dos líderes dos judeus que haviam crido na pregação de Jesus não professaram tal crença publicamente. Por que eles não professaram aquilo que haviam crido? No versículo seguinte, o 43, é dada uma explicação, mas antes quero abordar um aspecto mais “palpável” dessa explicação. Já havia sido decretado que todo aquele que assumisse simpatia pelo ensino de Jesus, seria expulso da sinagoga e esta ameaça dos fariseus havia surtido efeito, pois muitos, com medo de serem excomungados do templo, um templo que já não era mais casa de oração, acabaram se calando sobre aquilo que criam. Este é o caso desses líderes, eles não queriam ser tidos como seguidores de um Mestre que era visto como blasfemo pelos fariseus. Eles não queriam ter suas imagens vinculadas com alguém que havia sido repudiado pelos principais religiosos do judaísmo, uma religião que estava morta em seus erros.

Nisto chegamos ao âmago da questão, que é a explicação dada no versículo 43. É-nos dito que a falta de profissão da crença por parte desses líderes se deve ao fato de terem amado mais a glória dos homens do que a glória de Deus. Aqui está a raiz de toda idolatria real. Como eu disse, a idolatria exterior, ou seja, a ídolos, esculturas, imagens ou o que for, na verdade tem sua raiz no fato dos homens preferirem a glória de outra coisa que não a de Deus. É muito fácil combater a idolatria exterior, é muito fácil chutar a imagem, mas difícil mesmo é arrancar do coração a idolatria de si mesmo. O ídolo do homem é o pior que existe, pois está profundamente arraigado em seu coração. A sua própria imagem, em seu conceito, vale mais do que a glória de Deus. É isso que levou esses homens a não confessarem o que criam, eles não queriam ter suas imagens “manchadas”, suas imagens eram mais importantes do que a glória de Deus.

Todas as vezes que alguém zela por sua imagem mais do que pela verdade de Deus; todas as vezes que alguém prefere manter sua estima ao invés de confessar a Jesus, essa pessoa está se colocando em posição prioritária e isso, é dito na Bíblia, é idolatria, pois prioriza a criatura e não a Deus. Em Romanos 1:25, Paulo diz que isso é adorar e servir aos seres criados e não ao Criador. Só Deus merece honra, glória e poder, se isso não é verdadeiro na sua vida, pode ter a certeza de que você é um idólatra, tanto quanto ou pior do que aqueles que adoram as imagens de escultura. O que vale mais, a decadência do homem e das coisas criadas ou a glória do grande Criador de todo o universo?

sábado, 19 de julho de 2008

Constrangidos de pés lavados

Todos os cristãos estão bem familiarizados com a narração feita a respeito do momento em que Jesus lava os pés dos discípulos. Essa narrativa encontra-se somente no evangelho de João no capítulo 13 e é uma rica lição a respeito da humildade do Filho de Deus ao se curvar e realizar a tarefa que era feita pelos servos mais inferiores na sociedade daquela época.

Apesar da grande lição da humildade, outra lição me chama atenção neste texto, e é o constrangimento de Pedro no versículo 6 ao ver Jesus se inclinar para lhe lavar os pés. Acho muito interessante a reação de Pedro e eu não a entendia até que eu apliquei aquela ocasião à minha própria vida. Fiquei a imaginar como seria ter os meus pés sendo lavados por Jesus, o Deus em forma de homem. Realmente, que grande constrangimento seria.

O diálogo entre Jesus e Pedro nos indica algo a respeito daquele acontecimento. Jesus diz para Pedro no versículo 10 que não é necessário lhe lavar todo o corpo, pois este estava limpo, sendo assim, só teria que lavar os pés. O que quer dizer esse corpo limpo e o que quer dizer os pés sujos?

Com relação ao corpo limpo, creio que há pouca dúvida a respeito. Obviamente que Deus “lavou”, “purificou”, tornou “limpos” todos aqueles a quem Ele fez cumprir o Seu propósito eterno. E isso, como o próprio Cristo diz para Pedro, é feito uma só vez, sem a necessidade de haver uma repetição deste ato.

Se é assim, isso quer dizer que nunca mais nos sujamos, que não pecamos mais? Esse ensino seria mentiroso, afinal todos sabemos que mesmo aqueles que foram lavados por Deus, apesar de não viverem mais no pecado e não serem escravos do pecado, ainda assim às vezes acabam “manchando as suas vestes” com o pecado, ou, aplicando o texto de João 13, acabam por sujar os pés.

Ao sujar os nossos pés, necessitamos que eles sejam limpos e, como o prometido em 1 João 1:9, se confessarmos os nosso pecados Ele é fiel e justo para nos perdoar. Porém, lembram-se daquele constrangimento de Pedro? Agora, imaginem que sempre quando sujamos os nossos pés e entramos na presença de Deus, é necessário que Jesus os lave. Não mais o corpo inteiro, mas aos pés sim e o constrangimento é o mesmo. A transgressão, ou o pecado, dos filhos de Deus, não é mais como contra a lei, mas contra o amor do Pai e por isso há constrangimento.

Essa verdade que aprendemos tem que nos incitar a deixarmos cada dia mais o pecado de lado, a mortificá-lo, como dizem alguns teólogos. Sempre haverá constrangimento no coração daqueles que sabem contra Quem pecaram e sabem que não merecem ter os seus pés lavados por tão grande Deus. O amor de Deus excede todo entendimento.